Materiais
A, H, F, D, I: o que as letras das placas de pladur querem dizer
4 de setembro de 2026 · 7 min
Quem entra num armazém de materiais vê placas brancas, verdes e rosa e assume que a verde é para a casa de banho e a rosa é para o fogo. Não está longe da verdade, mas as cores são convenção comercial de cada fabricante e mudam de marca para marca. O que está normalizado são letras, e é por elas que se pede material.
A norma é a EN 520
A norma europeia aplicável às placas de gesso laminado é a EN 520:2004+A1:2009. É ela que define os tipos, os requisitos e os métodos de ensaio. Todas as placas com marcação CE vendidas em Portugal declaram o seu tipo segundo esta norma, e essa informação está impressa no tardoz da placa e na declaração de desempenho do fabricante.
As letras, uma a uma
- A — placa com face apta a receber acabamento ou decoração. É a placa corrente, a que se usa na maior parte dos tectos e divisórias.
- H — taxa de absorção de água reduzida. Repare na formulação: a norma não diz "impermeável" nem "para zonas húmidas". Diz que absorve menos água. Subdivide-se em H1, H2 e H3, por ordem decrescente de desempenho.
- E — placa para tosco de paredes exteriores, não destinada a ficar à vista nem exposta permanentemente.
- F — coesão do núcleo melhorada a alta temperatura, conseguida com fibras minerais e aditivos. Também aqui a formulação importa, e já lá vamos.
- P — placa de base, para receber reboco de gesso ou colagem.
- D — densidade controlada.
- R — resistência mecânica aumentada, com cargas de rotura superiores.
- I — dureza superficial melhorada. É a que aguenta melhor a pancada do dia a dia num corredor ou num espaço público.
As letras combinam-se
A norma é explícita: os desempenhos podem estar combinados na mesma placa, e nesse caso a designação junta as letras de tudo o que a placa cumpre. Por isso é que aparecem designações como DF ou DFH1.
Vale a pena dizer isto com todas as letras, porque circula muito escrito em contrário: não existe um "tipo DF" como categoria autónoma. DF é uma placa que é simultaneamente do tipo D e do tipo F.
O erro caro: confundir reação com resistência ao fogo
Este é o ponto onde mais se engana gente de boa-fé.
A reacção ao fogo é uma propriedade da placa. A placa de gesso laminado corrente é classificada como A2-s1,d0: incombustível, com produção de fumo muito limitada e sem gotículas inflamadas. Há produtos específicos que chegam a A1, mas A2-s1,d0 é o normal.
A resistência ao fogo — o EI 30, EI 60, EI 90 que aparece nos cadernos de encargos — não é uma propriedade da placa. É do sistema montado: o tipo e o número de camadas de placa, a estrutura metálica, o preenchimento com lã mineral, a selagem das juntas. A própria EN 520 diz que a resistência ao fogo, o isolamento sonoro e a absorção acústica estão ligados a sistemas, não a placas isoladas.
Consequência prática: comprar placa tipo F não dá um tecto EI 60. Só o sistema completo, montado exactamente como foi ensaiado, é que dá. Quem lhe vender o contrário está a vender-lhe uma segurança que não existe.
O mesmo raciocínio vale para a humidade
A placa tipo H absorve menos água. Não é estanque, não é para ficar molhada e não substitui impermeabilização. Numa casa de banho, o correcto é placa H onde há salpicos e vapor, impermeabilização por baixo do revestimento na zona do duche, e ventilação que tire mesmo o vapor para o exterior — e não o descarregue para dentro do tecto falso, coisa que vemos com alguma frequência.
Como escolhemos, na prática
- Tecto de sala ou quarto — placa tipo A. Não há razão para mais.
- Cozinha, casa de banho, lavandaria — tipo H, com o resto da solução de humidade tratado a sério.
- Caixa de escadas, garagem, compartimentação exigida por projecto — sistema certificado com placas tipo F ou DF, montado conforme o ensaio.
- Corredores, escolas, clínicas, espaços com muito movimento — tipo I, pela dureza superficial.
- Divisória com exigência acústica — o que conta primeiro é a solução: duas folhas independentes, lã mineral na caixa, perímetro com banda resiliente. Depois é que se escolhe a placa.
Uma nota que nos agrada dar
Há fabrico de gesso laminado em Portugal — a Gyptec, na Figueira da Foz, e a Gypfor, em Sines. A documentação técnica da Gyptec, em particular, é das melhores fontes em português sobre esta matéria e está publicamente disponível. Se for do género de querer perceber o que está a comprar, está lá tudo.
Em resumo
Peça sempre o tipo da placa, não a cor. Desconfie de quem promete resistência ao fogo com base na placa e não no sistema. E lembre-se de que a placa é só uma parte: a estrutura, a lã e a montagem decidem tanto ou mais do que ela.
Fontes
- EN 520:2004+A1:2009 — Gypsum plasterboards: definitions, requirements and test methods (excerto oficial)
- Gyptec Ibérica — Manual Técnico de Instalação de Sistemas em Placas de Gesso, 2.ª edição
- Gyptec Ibérica — documentação técnica, fichas e declarações de desempenho
- Knauf Portugal — catálogo técnico de placas de gesso laminado